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Faço música porque o que queria ouvir não existia. E esse objectivo obrigou-me a aprender todos os passos necessários para criar uma canção do início ao fim.

slowlevitation live @ fábrica do braço de prata
slowlevitation live @ fábrica do braço de prata
Em 2017 dou o primeiro passo nesta jornada: instalo o meu primeiro Digital Audio Workspace (DAW), FL Studio, e começo a aprender os básicos da produção musical e a criar as minhas primeiras composições, recorrendo a samples que vou encontrando pelo YouTube. Na altura em que comecei, não tinha nenhuma base de formação musical e não sabia tocar nenhum instrumento.
Passo 1: Aprender a usar um DAW e os básicos da produção musical.
Esta primeira fase foi fundamental porque exigiu que aprendesse sozinho vários sistemas novos: teoria musical, o próprio software e os meus ouvidos. Quero dar muito ênfase no último sistema que enumerei, porque com o tempo tenho vindo a perceber o quão importante é confiar nele.
No final de 2019, já com algum conhecimento de como operar um DAW, sou confrontado com a possibilidade de começar a fazer Jiu Jitsu ou aprender a tocar piano. Tomo a decisão acertada de aprender a tocar piano e, sem saber, dou um dos passos mais importantes do meu desenvolvimento musical.
Passo 2: Aprender a tocar um instrumento musical. Não é estritamente necessário saber tocar um instrumento musical para fazer música, mas a mim ajudou-me imenso a compreender melhor como funciona a interação entre cada nota.
Ao ter aulas de piano, ganho a estrutura de aprendizagem que tanto necessitava e tenho a oportunidade de interagir com o sistema musical de uma maneira mais próxima. É a partir deste momento que começo a aprender como posso manipular as notas existentes em acordes e é um passo importante para deixar de depender tanto de música criada por outros artistas (uma qualidade inerente à música que é sample-based).
O ano vira e em 2020 sou confrontado com o turbilhão que é a execução de uma tese de mestrado e com a pandemia do COVID-19. Ainda assim, encontro espaço para lançar Trials and Deleted Scenes, um EP de 10 faixas que estavam a ganhar pó no meu disco rígido. É um projecto onde a maioria da música é instrumental, mas nele incluo Wash Away My Soul, a primeira música em que canto, gravada diretamente com o meu iPhone 5s.
Passo 3: Aprender a escrever uma canção e certificar-me de que a termino e lanço. Eu acredito que uma peça de arte só está verdadeiramente terminada quando é lançada. Porque até ser lançada pode ser modificada e melhorada, enquanto que, a partir do momento em que é lançada, já não é possível editar nada. Esta impossibilidade força-me a iterar sobre a canção, a partir de uma ideia nova.
No final de 2020 compro o meu primeiro microfone (Behringer B1), a minha primeira interface de áudio (Behringer U-Phoria UMC202HD) e os meus primeiros fones (Beyerdynamic DT-990 Pro). Hoje em dia continuo a usar exatamente o mesmo material, com excepção da interface de áudio, que atualizei entretanto. E preparo-me mentalmente para o desafio que está no horizonte.
Em 2021 proponho-me a lançar um single por mês, com o objectivo de mostrar o meu desenvolvimento musical. Estes 12 singles culminaram no projecto a work in progress, onde canto em mais de metade das faixas e onde ganho mais confiança nas minhas composições musicais.
É também durante este ano que descubro que existe um processo chamado "mistura" e que é extremamente importante para uniformizar os volumes de uma canção. Mais tarde, aprendo também a outra face da moeda de engenharia de som: a masterização. a work in progress é o primeiro projecto que misturo, mas não o masterizo por ainda não ter o conhecimento necessário para tal.
Passo 4: Aprender os básicos de como misturar e masterizar uma canção.
slowlevitation live @ capitólio
slowlevitation live @ capitólio
2022 é um ano de preparação. No entanto, lanço uma canção extremamente importante para o meu desenvolvimento: Chasing. Esta canção é um passo importante porque é a primeira vez que misturo e masterizo um projecto na íntegra e nela exploro a possibilidade de cantar em português e inglês em simultâneo (algo que agora acontece naturalmente em algumas das minhas músicas). Com este Proof of Concept (PoC), começo a preparar o meu primeiro álbum, AWAKE. Não só isso, é também durante 2022 que me junto com jamar para criar o seu EP de estreia, anedonia.
Passo 5: Experimentar as ideias antes de as descartar por completo. Ao início estranhei misturar português e inglês na mesma canção, mas é algo que tenho feito cada vez mais porque o meu cérebro também pensa nestas duas línguas.
Para abrir 2023, jamar lança o seu EP de estreia em abril e em outubro lanço o meu primeiro álbum AWAKE. Este projecto é a primeira vez em que:
- planeio o lançamento de um álbum;
- crio CDs para acompanhar o lançamento digital;
- uso auto tune na minha voz;
- misturo e masterizo 12 faixas;
- planeio um concerto para apresentar as canções ao vivo.
Foi o culminar de 6 anos de trabalho e uma fonte de muita aprendizagem, tanto técnica, como pessoal. Sem dar muitos spoilers, AWAKE é um álbum conceptual que acompanha uma personagem fictícia, Miles, enquanto se apercebe que está insatisfeito com o decorrer da sua vida. Com o objectivo de tomar controlo do seu destino, Miles cria uma rutura na sua vida e o álbum acompanha as consequências desta ação.
Em AWAKE senti pela primeira vez que estava mais perto da visão que tenho para a minha música, mas ainda assim não me sentia totalmente satisfeito: de imediato identifiquei que existia espaço para melhorar.
Ainda em 2023 lanço meias de lã, a minha primeira canção de Natal. O Natal é a minha altura preferida do ano e todos os anos faço a árvore de Natal no primeiro de dezembro. Durante este evento familiar, ouvimos música natalícia e queria acrescentar o meu próprio contributo para esta banda sonora. Tenho o sonho de lançar um álbum de Natal, mas tendo em conta que não sou artista full-time, não consigo justificar alocar tanto tempo para trabalhar num projecto que só pode ser ouvido durante 2 meses cada ano. Sendo assim resolvi tentar uma abordagem um pouco diferente.
Passo 6: Praticar liberdade criativa. Se tens uma visão, faz tudo o que puderes para a alcançar.
Ao longo de 2024 lanço três singles que antecipam o lançamento do meu segundo álbum. É também durante este ano que amadureço o meu espetáculo ao vivo, graças à minha participação na Oficina Portátil das Artes (OPA), um projecto liderado por Francisco Rebelo (Orelha Negra, Fogo Fogo). Ao longo da OPA dou 4 concertos diferentes em 4 espaços diferentes, estando o ilustre Capitólio entre eles, e aprendo a apresentar-me de uma maneira mais confiante em palco.
Passo 7: Aprender como traduzir as canções que tenho para um espetáculo ao vivo de uma maneira que seja genuína para mim e que seja interessante para a audiência. Este passo necessita de muita tentativa/erro e de muitas iterações, mas é um investimento que vale a pena.
Para terminar o ano, lanço cachecol, adicionando mais uma canção para ouvir durante a altura do Natal. Ao juntar esta faixa à meias de lã, fico um pouco mais perto de concluir o meu sonho de lançar um álbum de Natal, apesar do rollout um pouco invulgar. Por enquanto este projecto chama se "uma levitação de natal", mas este nome pode mudar entretanto.
Já em 2025, descubro que viagens são uma boa fonte de inspiração e lanço italia, uma canção sobre a viagem que fiz a Itália. Este momento é importante porque até aqui sempre tinha visto viagens como uma distração do meu processo criativo e esta viagem fez-me ver outra perspectiva.
Perspectiva esta que também se registou alguns meses depois com o lançamento de pó nos tapetes, uma canção sobre a minha viagem a Marrakesh. E em conjunto com a música que mencionei anteriormente, fazem parte do meu segundo álbum dinâmico, em viagem.
A ideia é continuar a acrescentar músicas a estes dois projectos enquanto fizer sentido.
slowlevitation live @ capitólio
slowlevitation live @ capitólio
Também em 2025, termino e lanço o meu segundo álbum, nada pop, um projecto onde procuro explorar a estrutura que é inerente às canções Pop. Ao longo deste projecto, aprofundo todos os conhecimentos que adquiri até então e dou um passo em frente: lanço o meu primeiro videoclipe oficial.
balão balão foi a canção que mais toquei ao vivo, tendo sido o momento alto de todos os concertos que dei desde que a terminei. E quando refleti um pouco sobre as 7 canções de nada pop, pareceu-me ser a escolha óbvia para criar um videoclipe. Para conseguir atingir o absurdo da canção, decidi filmar o videoclipe numa feira popular, onde as luzes, cheiros e barulho criam um ambiente sem igual.
Em nada pop aproximo-me ainda mais da música que quero ouvir, mas logo após o lançamento do projecto identifiquei várias coisas que quero fazer melhor.
Passo 8: Questionar a estrutura das canções que crias. Porque é que as canções Pop seguem sempre a mesma fórmula? Porque é que funciona e como posso subvertê-la?
Antes de fechar o ano, lanço uma terceira música de Natal, lareira ou ac, onde elevo a minha composição ao nível seguinte: cada secção da música (verso, refrão e bridge) tem progressões de acordes diferentes, criando um ambiente único e levando a audiência numa viagem musical.
Passo 9: Evoluir as tuas composições para além dos 4 acordes em loop. Experimenta adicionar secções diferentes, com acordes diferentes, para criar momentos também diferentes ao longo da faixa.
Chego a 2026 com dois EPs, dois álbuns e vários singles lançados, e vejo que me aproximo cada vez mais de criar a música que quero ouvir. O objectivo é continuar a ouvir música e continuar a iterar sobre o que já tenho.
Atualmente estou a trabalhar no meu terceiro álbum e muito entusiasmado com a forma que está a tomar.
Passo 10: Iterar. Iterar. Iterar.